Giampolo Crepaldi Por Dom Giampaolo Crepaldi, bispo de Trieste, Itália

A encíclica Ladato Si’, do papa Francisco, é a primeira inteiramente dedicada ao cuidado da criação de acordo com a visão cristã. Devemos ser gratos ao Santo Padre por nos proporcionar de maneira sistemática este ensinamento de tamanha amplitude. Esta encíclica oferece uma visão orgânica da sabedoria acumulada pelo magistério papal mais recente, à luz do ensinamento bíblico e evangélico e da verdade da fé católica.

Não se pode deixar de notar, em particular, que a encíclica se conecta expressamente, em vários pontos, à Caritas in Veritate, de Bento XVI, mencionada várias vezes no texto. A encíclica de Ratzinger, de fato, abordou pela primeira vez, de modo abrangente e culturalmente profundo, duas questões que o papa atual continuou desenvolvendo. A primeira é a questão da tecnologia. A Caritas in Veritate tinha dedicado a ela um capítulo inteiro e a Laudato Si’ a comenta com completude. O desenvolvimento da tecnologia deu seus frutos, mas também revelou os pontos fracos do espírito de tecnicidade, que agora o papa Francisco chama de paradigma tecnocrático. É um paradigma de posse e autoexaltação individualista, que dá às pessoas um senso de poder sem o senso de responsabilidade. O papa Francisco usa muito, aqui, o pensamento de Romano Guardini, pensador muito estimado também por Bento XVI.

O segundo tema da Caritas in Veritate que continua a ser desenvolvido na Laudato Si’ é o da relação com a natureza. Geralmente, é conhecido como “problema ecológico” ou “ambiental”. Na perspectiva das duas encíclicas, não existe um problema apenas ecológico, entendido só como ligado ao meio ambiente. O problema ecológico é antes de tudo um problema antropológico e, por isso mesmo, um problema teológico, ou seja, de relação entre a criatura e o Criador. Há uma linha clara de continuidade entre as duas encíclicas.

 

O papa Francisco diz que a sua primeira encíclica quer enriquecer a doutrina social da Igreja. A razão disto não está só no fato de que hoje a questão ecológica é percebida por muitos como um problema social emergente. Naturalmente, isto também tem a sua importância. Mas a questão toca principalmente no fato de que a proteção da criação, na sua capacidade de conciliar o homem com a natureza e com o Criador, pode ser uma "chave" de toda a questão social. Da natureza, diz o papa Francisco, a humanidade tira as condições de vida, mas também os motivos de vida, se a enxergar de acordo com o ensinamento de Deus. A criação nos fala; cuidar dela é também cuidar do homem segundo o plano de Deus. Francisco toca muitos temas que, à primeira vista, não se ligariam à questão da criação: ele fala da família e da vida, do trabalho e da empresa, do desenvolvimento e da pobreza, como se a relação com a criação e com o Criador fosse uma perspectiva integral da vida social.

 

O papa desenvolve vários pontos da relação entre a proteção da vida humana e da família e o cuidado da criação. Bento XVI tinha aprofundado essa ligação, proposta por ele na Caritas in Veritate como marca altamente distintiva da visão católica da ecologia: a sua relação com a ecologia humana, já amplamente proposta por João Paulo II. O papa Francisco fala do aborto e dos direitos do embrião humano, rechaça a ideia de um planejamento familiar imposto politicamente e desafia o modelo neomalthusiano de que a salvação do ecossistema dependeria da redução planejada dos nascimentos. Segundo ele, esta ideologia faz parte do paradigma tecnocrático próprio da razão instrumental que a Laudato Si’ denuncia. O papa Francisco também nota a contradição de muitos movimentos ecológicos que defendem o ambiente natural, mas não o ambiente humano. A natureza, entendida como a criação, não pode ser vista por pedaços, mas sempre de modo integral. Ela é um desenho único.

Este é o significado da expressão "ecologia integral", que o papa usa com frequência. O adjetivo “integral” não significa o radicalismo de uma ideologia. Francisco bem sabe que os movimentos ecologistas são vítimas frequentes de uma ideologia simplista e reducionista. A integralidade significa a atenção a todas as interconexões, horizontais e também verticais; pode ser entendida como globalidade, como totalidade. O papa Francisco destaca as relações, as conexões vitais, as formas da colaboração comunitária como resposta à globalidade interligada dos problemas. Isso decorre do fato de que o criado é um "todo", não uma soma de particulares, mas uma unidade coordenada, um discurso unitário sobre o ser humano.

 

O papa mostra todos os aspectos desta ecologia "integral", do social ao cultural, do cotidiano ao sacramental e eucarístico. Tudo se conecta, mas o que mantém o todo é sempre a vida cristã, a videira enxertada em Cristo. Francisco eleva o discurso até a Santíssima Trindade. Os dogmas da fé católica não são alheios à nossa vida nesta terra.

 

Talvez seja polêmica a expressão "conversão ecológica", que pode ser explorada, juntamente com outras, por movimentos ecologistas complacentes com o espírito do mundo. O papa dá muitos exemplos concretos, pequenos até, mas isso não significa que ele não dê ao compromisso ecológico uma importância muito alta e totalmente cristã, conectada com toda a doutrina da fé. A "conversão ecológica" deve ser entendida neste sentido elevado. Conversão não a economizar água e energia, mas ao Criador, cuja criação manifesta a sua glória e bondade. A esta luz, mesmo os pequenos atos diários de respeito pelas coisas, animais, ecossistema e irmãos mais pobres são sinais visíveis de uma conversão mais profunda.

 

Há especial atenção no texto para a pobreza e para os pobres. A pobreza não se explica só em termos econômicos, e a luta contra a pobreza nunca é travada apenas com intervenções econômicas. O desrespeito pela criação é pago principalmente pelos pobres. Muitas vezes, porém, as ideologias que se vangloriam de defender os pobres são as principais destruidoras do equilíbrio natural. A ligação entre a degradação ambiental e a pobreza existe, mas a solução está na capacidade de ver o problema como um todo, do ponto de vista da ecologia integral. Nela os pobres encontram seu lugar, porque, mudando-se os corações e fazendo-se as pazes com a criação e com o Criador, as relações humanas também se enriquecem.

 

O papa chamou de "consumismo" uma atitude da mente e do coração: a de usar as relações e as pessoas como meios. Há o perigo de que ideologias sociais e econômicas se apossem desta expressão da encíclica. O papa fala de "mercado" ou "lógica de mercado" em referência à mentalidade da posse tecnocrática aplicada à economia, sem as distinções precisas feitas, por exemplo, por João Paulo II na Centesimus Annus. Mas, no final do discurso, ele afirma que a pobreza não é apenas um problema econômico ou sociológico. Ela depende de como as pessoas se relacionam com Deus e com o seu desígnio de salvação.

 

A encíclica também aborda as teorias científicas e as perspectivas práticas de gestão ambiental. Usa conceitos da sociologia contemporânea, como "decrescimento" e "sustentabilidade", ainda objeto de debates. Trata do que é possível e do que poderia ser diferente.

 

Ao abordar tantos assuntos difíceis e complexos, o papa procura colocá-los em um contexto mais rico de significado, emancipando-os de perspectivas reducionistas.