Palavra do Fundador

      “O Deus que te criou sem ti, não quer te salvar sem ti” (Santo Agostinho). Com essa frase o santo doutor nos ensina a respeito da participação humana na obra de salvação, pois essa carece da graça divina e do esforço humano, São Paulo nos exorta a esforçar-nos, chega a dizer que devemos desenvolver a nossa salvação com temor e tremor (Filipense 2,12). Logo, devemos pensar na vida eterna à luz da graça divina que conta com os nossos esforços. Somos chamados a proatividade na Obra da Salvação (Cf. João 3,16), nossa condição não é de passividade ou mesmo de reatividade, somos chamados ao protagonismo nessa Obra. Uma das maneiras de ser protagonista é assumindo decididamente e determinadamente a nossa vocação.
      A vocação é um chamado de Deus e uma resposta amorosa da Humanidade. Isso mesmo, Deus não se cansa de chamar, e nesse chamado irrevogável, nos elege, marca e projeta um futuro, ao mesmo tempo, no uso da liberdade, espera de nós uma resposta livre e amorosa. Não basta dizer vou viver ou fazer porque Deus mandou como se o que sinto não fosse importante, pelo contrário, é fundamental que queiramos o que Deus quer, respondamos sim ao que Ele nos pede, sobretudo, com amor e adesão, não digo sem dor e sim com amor e adesão.
     Vivemos numa sociedade onde para muitos os valores são líquidos ou fluídos, logo eles não se sustentam, e de formas inevitável todos são “contaminados” por essa forma de pensar, pela cultura, pelas ideologias defendidas de forma veemente, por causa disso os nossos sonhos, que deveriam nos projetar para o futuro, foram preteridos pelo pensamento voltado para o passado, a projeção de um futuro ou lugar ideal, conhecida como “utopia”, foi trocada pela busca de elementos que expressem alguma solidez, na nostalgia do passado, denominada por Bauman (2017) como “retrotopia”, e nessa se busca a solidez em extinção na atualidade.
      Na verdade, essa constatação nos leva a pensar que aquilo que é vivido não traduz os anseios reais que estão presentes no coração humano. Como afirmou o saudoso Papa Francisco na Encíclica Dilexit nos (Amou-nos), uma de suas últimas contribuições no papado para esses tempos difíceis, tudo provêm do coração, esse continua sendo fundamental para nossas vivências e escolhas, assim é preciso cuidar do coração.
      É preciso cuidar para que o coração não seja persuadido pelo que é líquido. A sociedade líquida afirma que precisamos ser voláteis, maleáveis, porque o sólido é rígido, duro, logo opressor, impositivo, essa é uma das falácias da liquidez quando quer nomear inverdades sobre a solidez, transformando-a num vilão. A vida fluída nos tira a sustentação, os fundamentos que podem nos sustentar a vida, enquanto a solidez nos sustenta.
      Toda vocação exige uma resposta amparada na solidez presente no coração. Hoje além de afirmarmos que não é preciso ter medo em dar a vida a Jesus e por Jesus é preciso dizer que não se tenha medo da estabilidade, de rotina, de ordem ou organização, dos valores e virtudes, pois tudo isso é fundamental para se responder com qualidade o chamado feito pelo Senhor. Qualidade aqui não significa perfeccionismo ou mesmo perfeição e sim dedicação, empenho, esforço, profundidade, ou seja, em meio das nossas imperfeições somos chamados a uma qualidade de resposta feita pelo Senhor.
      De modo especial esse mês nos impele a pensarmos em tudo isso, a nos aprofundarmos na nossa vocação, de batizados, filhos de Deus, mas também nas demais vocações que nos são feitas em decorrência dessa primeira e nas quais também precisamos responder diariamente.
           
Diácono Luizinho

Diácono Luizinho

Fundador da Comunidade Passio Domini